Parto Normal X Cesárea

Essa discussão parece nunca ter fim, ainda mais quando você escolhe o “lado” que você quer ficar. Em todo lugar perguntam do bebê e como ele nasceu e é inevitável tocar no assunto.

Ontem passei por uma experiência no mínimo estranha. Uma senhora me perguntou como a Laís tinha nascido, falei que de Parto Natural (que sim é diferente do “normal”) e que meus dois outros filhos tinham nascido de Parto Normal também.

Gente, ela me olhou mais ou menos assim:

Nójeeeento!

Eu fiquei sem ação na hora, ela falou:

– Sou instrumentadora cirúrgica e acho o Parto Normal uma coisa horrível!

– Realmente, o que vocês fazem com as mulheres no hospital deixa o parto horrível mesmo. Pra começar deixar a mulher deitada, é a pior posição pra parir.

– Ah mas não fica totalmente deitada, a cabeça fica um pouco levantada…

– Mas a barriga fica pra cima fazendo o útero lutar contra a gravidade, o sacro fica pressionado diminuindo o tamanho do canal de parto, só dificulta!

– Mas como que tem que ser então??? (Já indignada e achando tudo uma loucura.)

– Do jeito que a mulher quiser na hora!

– Mas NINGUÉM consegue fazer isso, na hora a mulher fica muito desesperada! (Olha, eu concordo que se eu tivesse ela do meu lado na hora eu ia ficar desesperada…)

– Se eu consegui quem disse que ninguém consegue? É só ter perto da mulher pessoas que ajudem ela de verdade, sem ficar mandando ela fazer força na hora errada, força de cocô, se ela fizer força de cocô ela vai fazer cocô oras! Eu tive a Lais de 4 na cama do quarto do hospital, nem fui pro centro cirúrgico, não precisa ir quando está tudo bem.  A Andrea (minha amiga que estava no mesmo lugar que a gente) teve na água na banheira do hospital.

Ela ficou sem argumentos, meu marido chegou, eu me despedi. Dessa vez pelo menos eu  não tive que escutar como uma cesárea é pratica (e pra ela também é lucrativa né? ) e blá blá blá whiskas sachet.

Aí eu fiquei pensando… como o mundo e as pessoas são estranhas. Quando uma mãe ou bebê morre durante uma cesárea ou depois por conta de alguma complicação (e acreditem há muito mais mortes por cesáre que por partos normais) ninguém vai fazer escândalo na mídia, ninguém fica indignado pelo médico ter marcado a cesárea antes do tempo, antes de feriado, férias, viagem “importante”. ALiás, ninguém nem cogita que a cesáre possa ter desencadeado algum problema. O que se vê é uma ignorância total de como o corpo da mulher funciona, de quando os procedimentos são realmente necessários. As mulheres optam pela cesárea porque ela é mais cômoda e prática, melhor ir lá te cortam, tiram o bebê pra você e você não tem que fazer nada. Melhor ficar na ignorância sobre como o seu corpo funciona. Mas todo mundo sabe de pelo menos 5 casos da filha da prima da vizinha que morreu no parto, que foi cortada, que o bebê tem paralisia cerebral…

E sinto muito dizer, os úteros na sua grande maioria funcionam muito bem! O que está com problemas é a cabeça das pessoas.

Uma participante do Gesta que queria muito fazer um parto normal teve que fazer uma cesárea de emergência. Ela se preparou para o parto, fazia os exercícios e tudo mais. No fim da gravidez a pressão subiu, começou a comprometer o fluxo sanguíneo do bebê e foi feita uma cesárea de emergência no MESMO dia. Esse é um caso de uma cesárea necessária. O bebê provavelmente teria problemas durante o trabalho de parto (que exige do bebê também, ele participa junto).

Mas quantas cesáreas de emergência eu já vi marcadas para daqui 5 dias? Porque o cordão está “perto do bebê”, a bacia da mãe é muito estreita, o bebê ainda não está encaixado ou a mulher tem escoliose???

Ah Marilia, eu tive 84728457824 cesáreas e estou bem, meus filhos todos lindos correndo pulando por aí, me dando maior trabalho! O que conta é o bebê, o que conta é que deu tudo certo no final…

Eu sei, mas eu não entendo. Me desculpa. Eu não entendo uma mãe optar por um procedimento que tem mais riscos, onde ela VAI sentir dor (depois mais vai) por medo da dor. A dor do parto passa, 15 minutos depois do parto da Lais eu tomei banho TOTALMENTE SOZINHA comi e fui no berçário ver ela.  É muito diferente. A Laís era prematura e nasceu com Apgar 9 e 10, durante o parto há hormônios que são liberados para o bebê que ajudam ele a respirar quando nasce. Na cesárea agendada sem entrar em trabalho de parto isso não acontece. São muitos os casos de complicações respiratórias de bebês que nascem de cesárea.

Ah Marilia, mas tem muita mãe que o bebê nasce de parto normal e é péssima mãe, isso não tem nada a ver.

A questão nunca foi essa, eu queria era dar uns sopapos na primeira mulher que falou: eu não sou “menas” mãe porque tive meu filho de cesárea! A questão é a saúde, é o engano que se perpetuou de que a cesárea é a melhor escolha, ela nem deveria ser uma escolha, ela deveria ser usada em situações específicas onde o parto apresenta um risco maior que a cirurgia.

Mas o que ainda me deixa mais triste são as mulheres que querem ter um Parto Normal e respeitoso e não podem. Não podem porque não se preparam, porque o médico jamais deixará ela entrar em trabalho de parto, porque a família aterroriza tanto que ela perde a paciência e marca a cesárea, porque o medo supera a confiança no seu próprio corpo. E quando elas chegam a ter um Parto Normal ele vem cheio de intervenções que não eram necessárias para apressar tudo e acabar logo, afinal para o médico não é nada lucrativo ficar ali esperando.

Nessa reportagem aqui o meu GO Dr. Alessandro Galleto fala:

O parto humanizado é aquele com menor intervenção possível, ou seja, com menos medicamentos e sem intervenção de conduta. “É proporcionar à mulher uma condição que ela considere a ideal para a realização do parto, com a presença de acompanhante, num ambiente tranquilo”, explica ele.

Segundo Galletto, a medicina transformou o momento da chegada do bebê em algo mais complexo. O que sempre aconteceu de forma natural, em qualquer ambiente, foi levado para dentro do hospital e cercado de tecnologias. “A humanização é o resgate do que era o modo mais fisiológico possível.”

E ainda mais:

 O médico afirma que toda mulher deve saber do funcionamento do seu corpo e das possibilidades existentes para o momento de parir. “É preciso dar informação para quem quiser fazer de maneira natural, ter oportunidade para isso. Minha função é detectar problemas e, desde que não haja nenhum, a mulher pode fazer o que quiser.

Quem dera todos os médicos pensassem assim, e todas as mulheres soubessem que o papel dos médicos é esse e o delas é parir se tudo estiver bem.

BjoS!

8 Respostas

  1. Ah! Vou falar! Tenho invejinha das mães q tiveram parto natural, parto normal. Sempre quis assim. Mas graças a minha falta de dilatação (pelo menos foi o médico q disse), optei por duas cesáreas. Ainda sonho com um parto normal, mas é quase impossível.
    Mas tb sou contra a mulher ficar lá, horas, dias sofrendo.
    E viva a liberdade de escolha (ou não!).
    Bjks da Mi (diiirce)

  2. “Sobreviver NÃO é o bastante…”

    http://www.blogmamiferas.com.br/2010/04/sobreviver-nao-e-o-bastante.html

    Adoro esse texto da Tata do Blog das Mamíferas…

  3. Mari, primeiro parabéns pelo texto.
    Segundo lugar, nao consigo entender como uma pessoa sente “nojo” de parto normal.
    Mas enfim… As pessoas confundem muito liberdade de expressão com invasão e desrespeito.
    O que todos nós sabemos é que é uma vergonha o retorno financeiro para um médico quando realiza PN, e não é muito maior o de uma cesárea, é uma cirurgia de grande porte. Mas é maior. Enfim… Penso que, se houvesse um incentivo maior ($) para os médicos aderirem a causa e não só as mães buscarem informações fora do consultório e “lutarem” pelo seu sonho, seria mais fácil. As informações estão aí, para quem quiser ler. Mas, mesmo super informada, o médico na reta final diz: Ele está em sofrimento”, é o que basta para essa mãe aceitar tudo e qualquer coisa “correndo”, achando que fez o melhor. Muitas vezes o fez, mas a maioria, foi só um engano por parte do médico que menospreza a vontade/sonho daquela mãe.

    A minha médica sabia que eu tinha vontade de tentar um PN na 3a gestacao, tendo 2 cesáreas anteriores, mas lá pelas 37 semanas disse: tenho medo do útero, melhor nao arriscar, mas se tu quiser, tudo bem. Sabe, ela estava grávida, quase no mesmo tempo que eu, e sempre foi muito legal, e estava mais sensível. Ela fez um PN 2 hs antes de eu ter a Analu, vi que de fato, ela estava com receio. E eu tb. Afinal, nunca tinha entrado em TP, estava com medo de não conseguir, de fazer alguma coisa que desse errado. Apesar de ler muito, eu nunca confiei muito no meu corpo, sempre me boicotei. Fomos para cesárea.
    Não tenho nenhum problema com as minhas. Eu vi minha filha nascendo de dentro de mim, com a trilha sonora que ela ouvia desde as 20 semanas, no note do meu anestesista estava meu pen drive tocado para ela. Ela tentou tornar o melhor possível aquele momento.
    As minhas duas cesáreas anteriores eu agendei com 39 semanas, pois devido a constantes problemas de Sindrome do Panico, nas gestações (e muita imaturidade), e fazendo pre-natal concomitante com psiquiatra, para todos parecia uma maneira mais adequada de trazer ao mundo meus filhos. Foi o melhor que eu pude fazer. Só pude fazer isso. Deitar e assistir. Mas curti cada momento, ali.

    Acho que, confiar no corpo, em um médico comprometido, ter apoio familiar, é simplesmente tudo que a mulher precisa. Pois o corpo certamente fará seu trabalho. Quando ele não faz, mesmo, aí sim, a cesárea existe para isso, e usamos os nossos bisturis elétricos para salvar.

    Enfim…

    Parabéns pelos 3 PNs, por divulgar sem desrespeitar as escolhas alheias, por conscientizar as mamães durante a gestação, para que os números um dia possam se inverter.
    E o parto é só o começo de tudo. Parabéns pela MAE, que és!!!

  4. Também sou contra a mulher ficar sofrendo, tem q ser com respeito 🙂

    BjoS!!!!

  5. Adorei!

    Eu também tenho pavor de “parto normal”: tenho horrror à episiotomia, ao Kristeller, ao puxo dirigido, a ficar deitada ou sentada fechando meu canal pélvico!

    Tenho pavor de profissionais de saúde insensíveis, que não estão atentos para as individualidades de cada família que se constitui dentro do ambiente de seu trabalho.

    Tenho nojo e medo de profissionais que sucumbem a experiência das mulheres – no setor privado – e as fazem acreditar na insegurança e ameaça que sua barriga é para seu bebê, colocando a si mesmo como alternativa “salvadora” daquela vida. Antiético, no mínimo.

    Mas eu amo ocitonica, vixe hein, como amo…. E cheirinho de liquido amniótico da minha cria então? De longe, foi o melhor de tudo que já senti!

  6. Parabéns Marília, acho que quanto mais falarmos desse assunto mais dismistificado ele fica e quem sabe as mulheres consigam por sí só resgatar suas prórpias raízes! Já ouvi cada comentário, daria pra escrever o manual dos horrores!!!!!!! Valeu pelo texto e pela luta que acho importantíssima para esses serzinhos nascerem mais “humanizados” e que formem uma sociedade melhor a parrtir de pequenos, mas importantíssimos detalhes! Beijo, até o próximo encontro do Gesta!!!!

  7. Seu texto está ótimo Marília!!!

    Eu tive o primeiro em um triste parto desumanizado, com epsio, sorinho para aumentar a dor e diminuir a espera dos médicos… bolsa estourada, solidão na sala de parto, foi tudo terrivel mas o pior mesmo foi a recuperação… Ahhhhhhhhh a recuperação… os pontos da epsio soltaram, tive dor, não tinha remédio para aliviar as pontadas intensas do corte que estava inflamado… eu chorava, não conseguia sentar, não conseguia amamentar, não conseguia sequer amar meu pequeno em meio as intensas dores…. A depressão foi inevitável… a raiva, a alma ferida, a mãe abalada… que trauma…

    Trauma esse que me seguiu por 9 longos anos… até ter minha pequena de parto natural, sem epsio, sem soro, sem nada e o melhor, ela nasceu dentro da bolsinha, carinho e colinho do marido para aliviar as dores… ÔÔÔ coisa boa!!!

    Isso sim me fez superar tudo e querer mais 3 filhos, me fez ser mãe desde o primeiro momento, me fez cuidar e não ser cuidada!!!

    Agora como não fazer uma mulher ter traumas de parto normal, cheio de tratamentos desumanos e dolorosos??? Até eu sou contra o parto normal, é do natural que eu falo, apoio e recomendo!!!

    Bjs Marília.

  8. olá Marília!
    Acabo de ler o seu relato sobre o parto da Cecília; sou amiga da Lorena; sou Fisio tbm, trabalhei com ela, no meu 1° emprego!
    Sei o quanto a Lorena é especial, diferente mesmo. Fiquei muito emocionada com a história do parto da cecília, e imaginei cada momento, a calma da Lorena; é isso mesmo, é assim q todos os partos deviriam ser.
    O primeiro paciente que eu tive na faculdade; foi uma criança com paralisia cerebral (por problemas no parto), depois dele, tive outros muitos; com os mesmo diagnóstico. Acho q a essa altura, vc deve imaginar o meu pavor com relação ao parto normal. Quando engravidei da Amanda, eu tinha quase que um rótulo na minha testa: vai ser cesárea! kkk
    Mas meu médico, conversou muito comigo sobre parto normal, e eu decidi que se eu entrasse em trabalho de parto, levaria até o fim.
    Não foi assim que aconteceu, na consulta de rotina quando fiz 39 semanas, eu tinha pequenas contrações e meu médico decidiu q faríamos a cesárea no dia seguinte. E foi o que aconteceu; quando ele abriu o útero e rompeu a bolsa, o líquido aminiótico já estava verde escuro; ela estava passando da hora. E então, mais do que nunca o rótulo da minha testa piscou! Graças à Deus, eu fiz a cesárea.
    É muito difícil pra mim, com essa experiência, dizer q prefiro a cesárea ao parto normal. Com certeza queria ter uma experiência como foi a da Lorena; mas, sei lá, acho q eu não tenho a capacidade quase que espiritual que a Lore tem, e que vc deve ter tbm!
    Quero te parabenizar pelo seu trabalho, estou curiosa por conhecer mais! Deus te abençoe muitoooo! Vc é um instrumento Dele aqui na Terra!!! bjo

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